domingo, 14 de maio de 2017

Auschwitz e Birkenau - "Arbeit macht frei"

“Pela primeira vez apercebemo-nos de que a nossa língua
 carece de palavras para exprimir esta ofensa: 
a destruição de um homem. 
(...) Já nada nos pertence:
 tiraram-nos a roupa, os sapatos, até os cabelos; 
se falarmos, não nos escutarão,
 e se nos escutassem, não nos perceberiam”
Se isto é um homem Primo Levi .


Porquê visitar campos de concentração? Foi uma pergunta que me fizeram....
O desejo de ver com os meus olhos o que li e vi nos livros, em filmes e documentários....
Uma espécie de vontade de ver se aquilo de facto aconteceu, num pais civilizado como a Alemanha e numa historia tão recente......

E à chegada num dia nublado e frio lá estava Arbeit macht frei - o trabalho liberta....

 
Auschwitz é o nome de uma rede de campos de concentração localizados na região sul da Polónia, anexada pela Alemanha Nazista o maior símbolo do holocausto perpetrado pelo nazismo durante a segunda guerra mundial.






A razão da sua construção deve-se ao facto do enorme numero de prisioneiros que os nazis fizeram, principalmente judeus que excediam a capacidade das prisões existentes.









Este foi o maior dos campos de concentração nazistas, composto por 3 campos principais,
Auschwitz I (Stammlager, campo principal e centro administrativo)
Auschwitz II - Birkenau (campo de exterminio) o lugar escolhido para a solução final.
Auschwitz III - Monowitz (campo de trabalhos forçados)
.......e mais de 30 campos satélites





Os que visitámos foram o I e II


Os campos são enormes e enorme é a multidão que por lá circula, mas o silencio, impera, o respeito com que a maioria das pessoas circula por lá é notório, o que se ouve são os passos dos visitantes, o caminhar....


Na entrada e para quem vai com visita guiada é-nos cedido um aparelho com phones para que sintonizemos o canal pelo qual a nossa guia vai falar e assim também os guias falam baixo e nem isso perturba a passagem pelo campo e vários blocos....


Auschwitz era o nome alemão da cidade de Oswiecim em volta da qual os campos eram localizados. Birkenau tradução alemã de Brzezinka, uma pequena cidade que foi desalojada e destruída para a construção do campo.



Ao longo da visita que começa em Auschwitz I vamo-nos apercebendo do terror que ali se viveu, ainda que neste as condições eram "excelentes" e os blocos se encontrem em perfeitas condições de conservação é aqui que funciona a maior parte do museu, onde está exposta uma amostra considerável do espólio que restou e que nos permite começar a entrar na dura realidade.


No bloco 4 é relatado o processo de extermínio, lá estão expostos mapas e fotos do campo em operação, cópias do registo de prisioneiros e maquetas das câmaras de gás, as latas do gás Zyklon.
É neste bloco que estão também expostos kilos de cabelo humano, usados para forrar casacos dos soldados, e vendido para fábricas de tecidos finos, é proibido tirar fotografias.






No bloco 5 estão expostos os bens retirados aos prisioneiros logo á sua chegada ao campo, utensílios de cozinha, escovas,malas sapatos.....






No bloco 6 é relatada a maneira como eram registados, lhes era atribuído um numero e como eram classificados....

É no bloco 11 que nos apercebemos do horror vivido, ao atravessar o corredor de entrada com as muitas fotografias com os rostos inexpressivos dos prisioneiros e a sua data de entrada e saída (morte), muitos duravam apenas dias ou meses...



as salas laterais umas com palha e outras com uns "colchões" no chão,



 as latrinas sujas e comunitárias sem qualquer privacidade



Os dormitórios que segundo a guia estes eram muito bons e eram reservados só a prisioneiros com condições de trabalhar





E para culminar a descida ás catacumbas, a prisão dentro da prisão, as celas mais claustrofóbicas que se possa imaginar estão aí, onde os que tentavam quebrar as regras ou fugir, eram postos de castigo, à fome e ao frio, alguns metidos em celas que nem é possível imaginar como cabia uma pessoa, eram aí colocados 4 prisioneiros e onde por vezes colocavam velas acesas no único respiradouro para ajudar a queimar o oxigénio..... atravessar aqueles corredores é torturante, claustrofóbico espreitar aqui e ali nos buracos das portas imaginar.....

Aqui não é permitido tirar fotos, deixo a mesa onde eram ditadas as sentenças.


Foi nestas celas que foi experimentado pela primeira vez o Gás Zyklon B, um pesticida altamente letal e como teve sucesso adoptaram-no como meio de extermínio em massa, adaptando um antigo bunker para câmara de gás.

Ao lado do bloco, a parede/muro das execuções, mas as janelas estavam tapadas..... para que os outros prisioneiros não vissem....


Para quem pensa que as câmaras de gás/crematórios era o pior nos campos, desengane-se o terror psicológico infringido aos prisioneiros neste e noutros pavilhões está bem presente em todo campo.

O bloco 21 era temido porque era aí que os médicos faziam experiências terríveis com os prisioneiros, esterilizar e inseminar as mulheres com vista a gravidez de gémeos para depois aplicar eliminando umas raças e aumentando a raça pura ariana.
Os que iam lá por doença era apenas para serem avaliados se tinham condições de continuar ou se seguiam para a solução final....


É na câmara de gás e crematório que funcionou até que as de Birkenau ficassem prontas, que termina a visita a Auschwitz I





A guilhotina onde foi decapitado Herman Hoss que viveu com a sua família numa vivenda paredes meias com o campo


Birkenau é o mais conhecido como Auschwitz, enorme, impressionante chegar lá e ver aquele imponente edifício com os carris do comboio a passar por baixo da torre, comboios que transportavam os prisioneiros para a "Solução final para o problema Judeu", o extermínio dos Judeus como povo.




Depois de chegarem nas carruagens fechadas e claustrofóbicas os prisioneiros eram seleccionados e divididos, homens para um lado e mulheres para o outro.


Homens para um lado



Mulheres para o outro,  depois de começar a funcionar o campo esteve 1 ano sem água....




Foi aqui que foi construído o maior numero de câmaras de gás e crematórios, em 1943 estavam todos a funcionar.

Tanque onde eram depositadas as cinzas retiradas dos crematórios tem agora um monumento



"A parte suja" dessa tarefa nas câmaras e crematórios era deixada para os prisioneiros......
A tarefa de retirar das câmaras de gás os corpos era feita por judeus seleccionados para esse fim os Sonderkommando, eram obrigados a isso em troca de suas vidas e ainda tinham que lhes retirar os dentes de ouro, antes de os meterem nos crematórios..... o que eles não sabiam era que passado pouco tempo também eles seguiam o mesmo fim.


Em toda a visita tive sempre presente o Livro de Primo Levi, Se isto é um homem, a grande interrogação dele, com a tortura que passaram nos campos, as humilhações e privações de tudo, toda esta mecânica de organização dos campos em que os prisioneiros eram obrigados a fazer coisas terríveis e em que os prisioneiros eles próprios faziam coisas que ele achava aberrantes, tal como esperar que alguém morresse para lhe roubar as botas, o homem reduzido a nada... como conseguiram sobreviver a isto.... ele consegui, mas suicidou-se passado algum tempo, não conseguiu resistir a esta tortura psicológica.....


Quando deram conta que tinham perdido a guerra os alemães tentaram destruir o máximo de provas dos crimes aí cometidos.
Por isso os crematórios e câmaras de gás, estão destruídos e foi aí construído um monumento de homenagem aos judeus mortos.



A maioria dos barracões estão de tal modo fragilizados que não é permitida a entrada, mas no único que entrámos deu para perceber as condições "infrahumanas" que aí se viveram.....



Monumento de homenagem ás vitimas do holocausto a placa escrita em hebraico



Foi uma visita marcante, o campo está tal como ficou no fim do seu encerramento, apenas alguns pavilhões do Auschwitz I sofreram alterações porque como funciona como museu, foram ligeiramente alterados na sua estrutura interna para melhor expor o espólio existente.

Como visitar Auschwitz:
As visitas podem ser feitas de modo livre e não se paga nada, apenas se tem que tirar bilhete para que conste para a estatística, existem autocarros grátis que circulam entre os dois campos que distam apenas 3 km, a paragem é em frente da entrada, para ir sem guia terá que entrar nos campos antes das 10h ou depois das 15h.

Quem quiser visita guiada convém comprar o bilhete e marcar com antecedência na língua desejada, para não ter surpresas.

Com alguma antecedência o melhor é marcar no site oficial do campo, muito mais barato do que nos operadores locais, o preço que consta lá é em Zlotis, o que por vezes causa alguma confusão e podemos até pedir uma reserva não padrão se formos em grupo menor que 10 e teremos um guia só para nós.
Nestes casos terá que chegar também a Oswiecim (nome da cidade onde ficam os campos) por sua conta.
De comboio 1h30 informações aqui ou de autocarro e esta empresa faz esse trajecto e pára mesmo á porta.

Nós fomos com visita guiada e marcámos no site Cracovia.net, porque quando tentámos marcar no oficial já estava esgotado em espanhol e inglês para os dias desejados, as línguas que esgotam mais rápido.
A reserva fizemos cá na net e correu tudo muito bem, mas lá em todas as esquinas há sítios para comprar as excursões e o preço é o mesmo da net.

 Fomos com visita guiada, para melhor perceber e não passar por ali como por um museu qualquer.
Tenho por experiência de outras viagens que andar de modo livre tem algumas vantagens, mas em determinados casos tem vantagem ir com guia, pessoas locais, estudiosos que nos contam a história de um modo mais sentido, muito diferente de ler nos guias e algumas histórias que nem sequer constam....
Esta excursão que comprámos incluiu o transporte a partir de Cracóvia.

Outro site que considerámos foi o Getyourguide


Algumas considerações:
No campo não entram carteiras nem mochilas maiores que uma folha de papel A4 e são rígidos nisso, ou deixa no autocarro se for com transporte ou nos cacifos que disponibilizam na recepção.
Pode-se fotografar em quase todos o campo sem flash, apenas alguns sítios não se pode.
A visita não é recomendada a crianças menores que 14 anos mas não é proibido.
Recomenda-se silencio e respeito, não é bonito andar a tirar selfies em frente de cinzas..... enquanto as guias contam a história....

Aqueles que não recordam o passado 
estão condenados a repeti-lo

1 comentário:

  1. Alcina,
    Por mais que pareça mórbido visitar um lugar como esses, também partilho da sua opinião, como se quiséssemos ver para esquecer, quem sabe "apagar" tão doloroso episódio da "humanidade".
    Sim, há lugares maravilhosos nesse mundo, mas também há os que precisam ficar como exemplos a não serem seguidos jamais.
    Beijos!

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